FOTOGRAFIA NA NATUREZA
Tal como a metáfora do ovo e da galinha, também na fotografia de natureza me questiono sobre o que deve estar em primeiro, se a fotografia, se a própria natureza.
A minha opinião — fundamentada histórica e filosoficamente — é que quando a fotografia se subordina quase inteiramente à glorificação da natureza, corre o risco de abdicar daquilo que a torna linguagem crítica e poética própria, passando a funcionar sobretudo como instrumento celebratório ou ilustrativo.
Historicamente, esta tensão surge muito cedo. No início do século XX, com Ansel Adams e a f/64, a natureza torna-se um motivo quase absoluto: sublime, intocada, elevada a ideal moral e estético. Adams defendia um rigor técnico extremo — o famoso Zone System — não como fim em si, mas como meio para servir a grandeza da paisagem. No entanto, ao longo do tempo, esse paradigma foi sendo cristalizado: técnica impecável, natureza monumental, ausência de ambiguidade. A fotografia passa a ser avaliada sobretudo pela sua capacidade de “embelezar” o mundo natural.
O problema filosófico surge quando essa lógica transforma a fotografia num dispositivo transparente, como se ela desaparecesse para deixar a natureza “falar por si”. Ora, pensadores como Vilém Flusser alertam precisamente para isso: a fotografia nunca é neutra, nunca é apenas janela. É sempre um gesto, uma escolha, um programa. Fingir que a fotografia se anula perante a natureza é ocultar o aparelho, o olhar e a ideologia que o sustentam.
Do ponto de vista da teoria fotográfica, John Szarkowski mostrou que a fotografia ganha força quando assume as suas próprias condições — enquadramento, tempo, detalhe, ambiguidade — e não quando tenta imitar uma ideia romântica ou pictórica do mundo. Quando a natureza se torna o “assunto único” e incontestável, a fotografia tende a perder densidade conceptual: deixa de questionar o real para o confirmar.
Já Roland Barthes, em A Câmara Clara, lembra-nos que a fotografia vive da tensão entre o studium (o que reconhecemos culturalmente) e o punctum (o que nos fere, desestabiliza). A fotografia de natureza excessivamente glorificadora tende a ficar presa ao studium: bela, correta, admirável — mas raramente perturbadora. Falta-lhe fissura, silêncio, falha, metáfora.
É precisamente contra essa tradição que surgem movimentos como os New Topographics (Robert Adams, Lewis Baltz), onde a paisagem deixa de ser sublime e passa a ser banal, ferida, atravessada pelo humano. Aqui, a natureza já não é motivo sagrado, mas campo de reflexão. A fotografia recupera o seu lugar como pensamento visual, não como decoração.
Portanto, a meu ver, quando a fotografia se submete à natureza como valor absoluto, abdica da sua dimensão filosófica. Torna-se reverente, mas pouco crítica; espetacular, mas pouco interrogativa. A técnica, nesse contexto, deixa de ser linguagem e passa a ser ornamento.
Em contrapartida, quando a fotografia de natureza assume a sua condição de construção — quando aceita a abstração, o erro, a subjetividade, o tempo dilatado, a metáfora — ela deixa de “mostrar a natureza” para pensar a natureza. E é aí que reencontra a sua força enquanto arte contemporânea.
Nesse sentido, abordagens como a natureza imaginária, a dissolução do referente, o uso do ICM ou da longa exposição não empobrecem a natureza: libertam a fotografia da obrigação de ilustrar e devolvem-lhe a capacidade de sugerir, questionar e sentir. Não é a natureza que perde protagonismo — é a fotografia que recupera a sua voz.

