A COR E O PRETO E BRANCO NA FOTOGRAFIA
fotografia 1 :
fotografia 2 :
Entre a cor e o preto e branco existe, para mim, muito mais do que uma decisão estética, existe uma escolha emocional, uma forma de dizer ao mundo aquilo que ele desperta em mim no instante em que fotografo. A fotografia é a minha principal forma de relação com a realidade; é através dela que observo, interpreto e devolvo ao exterior aquilo que me atravessa interiormente. Nesse sentido, cada imagem é sempre um encontro entre aquilo que está diante de mim e aquilo que sou.
A cor aproxima-se da realidade visível. É, de certa forma, a continuação natural daquilo que os olhos encontram. O céu mantém a sua tonalidade, o mar conserva o seu azul ou o seu cinzento, a luz espalha-se pelas rochas e pela paisagem tal como existia naquele instante. Quando escolho fotografar a cores, faço-o muitas vezes porque quero preservar essa sensação de presença, de plenitude, de beleza imediata. A cor transporta consigo uma certa alegria de estar no mundo, uma vibração sensorial que prolonga a experiência vivida.
Na primeira fotografia, a atmosfera luminosa, os azuis suaves do mar, a névoa distante e os tons quentes da falésia tornam-se essenciais para transmitir a serenidade e o encantamento que aquela paisagem costeira provocava em mim. Há uma sensação de harmonia, de contemplação e de bem-estar que a cor reforça. Sem ela, perder-se-ia parte da emoção original daquele momento, porque é precisamente através dessas tonalidades delicadas que a imagem comunica a paz interior e a alegria silenciosa que senti diante daquela imensidão.
Já o preto e branco nasce, para mim, de uma necessidade diferente. Não procura reproduzir a realidade tal como ela é, mas antes depurá-la, afastá-la do imediato, retirar-lhe o excesso de informação para deixar apenas aquilo que é essencial. O preto e branco é uma forma de condensar o olhar, de concentrar a emoção e de transformar a fotografia numa espécie de metáfora visual. Ao eliminar a cor, elimina-se também uma parte da distração, e o que permanece ganha uma intensidade quase simbólica.
Na segunda fotografia, o preto e branco torna-se indispensável. A ausência de cor faz emergir a bravura das aves pousadas no cimo da rocha, pequenas presenças frágeis diante da violência das ondas e da dureza mineral da paisagem. O contraste entre a espuma branca e a densidade escura da pedra reforça a ideia de resistência, de permanência e de coragem. A imagem deixa de ser apenas uma descrição de um lugar e transforma-se numa narrativa sobre fragilidade e força, sobre permanência perante a adversidade.
É importante lembrar que o preto e branco acompanhou o nascimento da fotografia não por escolha estética, mas por impossibilidade técnica de reproduzir a cor. Durante muito tempo, fotografar significava trabalhar apenas com luz, sombra e gradações de cinzento. Hoje, porém, quando escolhemos o preto e branco, fazemos uma escolha deliberada, profundamente expressiva e artística. Já não é uma limitação: é uma linguagem.
Talvez por isso o preto e branco conserve ainda uma dimensão tão emocional. Ele parece falar diretamente com a memória, com a melancolia, com aquilo que existe para lá da superfície visível das coisas. A cor aproxima-nos do real; o preto e branco aproxima-nos daquilo que sentimos perante o real.
No fundo, escolher entre cor e preto e branco é escolher a forma como quero que a realidade atravesse essa ponte que a fotografia constrói entre o mundo e mim. E, ao atravessá-la, ela já não chega intacta, chega transformada pelo meu olhar, pela minha sensibilidade e pela marca inevitável daquilo que sou.