O paradoxo da fotografia extraordinária

Sobre o extraordinário, o banal e a necessidade de voltar a olhar

Desde que fotografo de forma consciente que uma pergunta me acompanha:

Porque estou a fotografar isto?

Não é uma pergunta técnica. Não tem que ver com a objetiva que tenho montada, com a velocidade do obturador ou com a abertura escolhida. Também não tem necessariamente que ver com a qualidade da luz.

É uma pergunta anterior à fotografia.

Porque há momentos em que fotografamos porque alguma coisa nos chamou. E há outros em que fotografamos porque fomos à procura de uma fotografia.

Parece ser a mesma coisa, mas não é.

Talvez seja precisamente nesta diferença que começa aquilo a que chamo o paradoxo da fotografia extraordinária.

Vivemos num tempo em que a fotografia parece ter cada vez mais necessidade de nos surpreender. Uma fotografia deve ser extraordinária, espectacular, rara. Na fotografia de natureza, esta tendência é particularmente evidente. Procuramos a grande paisagem, a luz dramática, a tempestade, a neblina, a neve, a montanha, a árvore perfeita, o lugar remoto.

Eu também procuro essas coisas.

Não vejo qualquer problema nisso.

O problema começa quando passamos a acreditar que uma fotografia só merece existir se aquilo que está diante de nós for extraordinário.

Porque, na verdade, a nossa vida é quase toda feita de coisas normais.

E talvez seja precisamente aí que a fotografia tenha uma das suas funções mais importantes: ensinar-nos a voltar a olhar para aquilo que deixámos de ver.

A fotografia que procuramos

Há uma diferença entre sair para fotografar e sair à procura de uma fotografia.

Quando saio para fotografar, não sei necessariamente o que vou encontrar. Levo comigo a minha experiência, a minha memória, aquilo que me interessa, mas deixo espaço para que o mundo aconteça.

Quando saio à procura de uma fotografia, já tenho muitas vezes uma imagem na cabeça.

Procuro a luz certa. A atmosfera certa. O enquadramento certo. O momento certo.

E, sem me dar conta, começo a pedir ao mundo que corresponda à fotografia que imaginei.

É uma inversão subtil.

Em vez de a fotografia nascer da relação com o mundo, começo a procurar no mundo aquilo que pode servir a fotografia.

É fácil perceber como isto acontece na fotografia de natureza.

Esperamos pelo pôr do sol. Esperamos pela tempestade. Esperamos pela neblina. Esperamos pela neve.

E, quando finalmente acontece aquilo que procurávamos, fazemos a fotografia.

Mas o que aconteceu entretanto?

Talvez tenhamos passado horas diante da paisagem sem verdadeiramente a ver.

Estávamos ali, mas estávamos à espera de outra coisa.

Talvez o maior perigo não seja procurar o extraordinário.

Talvez seja deixarmos de ver o que acontece enquanto o extraordinário não chega.

O mundo normal

A maior parte dos nossos dias não tem uma luz excepcional.

Não há neblina.

Não há tempestades.

Não há céus dramáticos.

Não estamos diante de uma montanha majestosa.

Estamos numa estrada que já percorremos dezenas de vezes. Numa rua que conhecemos. Diante de uma árvore que vemos todos os dias. A olhar para o mar num dia aparentemente igual a tantos outros.

É esse o mundo onde vivemos.

E, no entanto, quando pensamos em fotografia, tendemos a procurar precisamente aquilo que se afasta desse quotidiano.

Talvez porque fomos ensinados a acreditar que uma fotografia precisa de justificar a sua existência.

Tem de haver qualquer coisa de especial.

É aqui que penso frequentemente em Stephen Shore.

Shore dedicou uma parte fundamental da sua obra àquilo que poderíamos chamar o mundo sem acontecimento: ruas, restaurantes, motéis, estradas, sinais, refeições, lugares comuns.

Não procurou apenas beleza onde ela era evidente. Procurou fotografias onde quase ninguém pensava que houvesse uma fotografia.

A sua atenção aos “momentos médios” da vida é particularmente significativa. A fotografia não precisa de esperar pelo acontecimento dramático. Pode simplesmente prestar atenção ao que está diante de nós.

E talvez esta seja uma das tarefas mais difíceis do fotógrafo:

ver aquilo que já conhece como se fosse a primeira vez.

A banalidade pode ser uma porta

William Eggleston levou esta possibilidade ainda mais longe.

As suas fotografias deram importância visual a coisas que, à partida, pareciam não ter qualquer importância: estradas, casas, carros, interiores, objectos, postos de gasolina.

A sua famosa ideia de uma fotografia “democrática” contém, para mim, uma grande liberdade.

Não há assuntos que tenham, à partida, mais direito à fotografia do que outros.

Uma montanha pode ser fotografada.

Uma parede também.

Uma árvore.

Uma sombra.

Um posto de gasolina.

Uma estrada.

Um pedaço de erva.

Não significa que tudo tenha o mesmo valor.

Significa que não devemos decidir antecipadamente o que merece o nosso olhar.

É o olhar que atribui significado.

E esta é uma ideia particularmente importante para quem fotografa natureza.

Porque a natureza que fotografamos não é apenas aquela que aparece nos postais.

É também a pequena vegetação que cresce junto à estrada, o desenho da areia, a erosão de uma rocha, uma árvore aparentemente vulgar, a luz sobre um campo, a forma como o vento altera uma paisagem que julgávamos conhecer.

A natureza não precisa de ser grandiosa para ser reveladora.

Talvez sejamos nós que precisamos de reaprender a olhar para ela.

A atenção antes da fotografia

Começo a pensar que a verdadeira matéria-prima da fotografia não é a luz.

É a atenção.

A luz é aquilo que torna a fotografia possível.

Mas é a atenção que nos faz parar.

Quantas vezes passamos diante de uma coisa durante anos sem verdadeiramente a ver?

A árvore está lá.

A estrada está lá.

O mar está lá.

A paisagem está lá.

Mas nós já a conhecemos.

Ou pensamos que conhecemos.

A familiaridade é uma das grandes inimigas do olhar.

Quando alguma coisa se torna demasiado familiar, deixamos de a observar.

E talvez a fotografia possa funcionar precisamente como uma pequena interrupção desse automatismo.

A câmara obriga-nos a parar.

A olhar.

A escolher.

A permanecer.

Por vezes, uma fotografia nasce simplesmente porque, naquele dia, alguma coisa que sempre esteve ali se apresentou de maneira diferente.

Não porque o mundo tenha mudado radicalmente.

Mas porque nós estávamos disponíveis para o ver.

O extraordinário está onde?

É aqui que o paradoxo se torna interessante.

Uma paisagem extraordinária não garante uma fotografia extraordinária.

E uma paisagem normal não impede que ela aconteça.

Talvez o extraordinário esteja menos no acontecimento do que no olhar.

Duas pessoas podem estar diante da mesma paisagem, no mesmo momento, com a mesma luz. Podem fazer duas fotografias completamente diferentes.

A paisagem é a mesma.

Mas a experiência não.

Cada fotógrafo chega ao mundo acompanhado pela sua própria história, pelas suas memórias, pelos lugares que ama, pelas perdas, pelas descobertas, pelas imagens que viu, pelas emoções que viveu.

É por isso que a fotografia nunca é apenas aquilo que está diante da câmara.

É também aquilo que o fotógrafo leva consigo.

Guy Tal tem desenvolvido precisamente esta ideia de uma fotografia de natureza que ultrapassa a descrição da paisagem para procurar uma relação mais interior com o lugar. A paisagem não é apenas um cenário. Pode tornar-se parte da nossa própria experiência e da nossa própria memória.

É uma ideia que me é particularmente próxima.

Porque, para mim, fotografar nunca foi apenas representar o mundo.

É uma maneira de me relacionar com ele.

Fotografar o que vivemos

Talvez seja por isso que uma fotografia aparentemente banal possa adquirir, com o tempo, uma importância que não imaginávamos.

Uma estrada.

Uma árvore.

Uma casa.

Uma determinada luz.

O mar num dia sem nada de especial.

Uma fotografia que, no momento em que foi feita, não parecia destinada a ficar.

E, no entanto, anos depois, é precisamente essa fotografia que nos comove.

Porquê?

Porque já não estamos a olhar apenas para aquilo que ela mostra.

Estamos a olhar para aquilo que fomos.

É aqui que a fotografia normal ganha uma força extraordinária.

O extraordinário é, por definição, excepcional.

O normal é aquilo que constitui a nossa existência.

E talvez por isso seja o normal que mais tarde nos fará falta.

Quando fotografamos apenas aquilo que é extraordinário, construímos uma memória dos nossos momentos excepcionais.

Quando fotografamos também o que é normal, construímos uma memória da nossa vida.

A fotografia como relação

Esta ideia aproxima-se muito daquilo que tenho procurado compreender na minha própria fotografia.

Interessa-me cada vez menos perguntar se uma imagem é extraordinária e cada vez mais perguntar o que aconteceu entre mim e aquilo que fotografei.

O que me fez parar?

O que me chamou?

Porque escolhi aquele enquadramento?

O que senti?

O que reconheci?

O que descobri?

Por vezes, a resposta está numa paisagem.

Outras vezes, está numa árvore.

Outras ainda, numa estrada que percorro habitualmente.

Há manhãs em que a mesma estrada parece outra.

Uma determinada conjugação de neblina e luz pode transformar completamente um lugar conhecido.

Mas o que me interessa não é apenas o fenómeno.

É o facto de eu ter estado suficientemente atento para que aquele instante me acontecesse.

A fotografia vem depois.

Primeiro vem a relação.

Depois vem a imagem.

Talvez seja por isso que uma fotografia não deva ser entendida apenas como o resultado de um processo técnico.

É também o vestígio de uma experiência.

E quando o extraordinário pode ser inventado?

Esta reflexão ganha hoje uma actualidade particular.

A inteligência artificial tornou possível criar imagens extraordinárias de coisas que nunca aconteceram.

Podemos inventar paisagens.

Inventar luzes.

Inventar montanhas.

Inventar tempestades.

Inventar mundos inteiros.

A imagem extraordinária deixou de depender necessariamente da experiência extraordinária.

E isto coloca à fotografia uma pergunta inevitável:

Se podemos criar qualquer imagem, o que torna uma fotografia uma fotografia?

Não tenho uma resposta definitiva.

Mas começo a acreditar que uma parte da resposta está precisamente naquilo que a imagem artificial não pode substituir da mesma maneira: a experiência de ter estado lá.

O acaso.

O tempo.

A presença.

A relação.

O corpo.

O frio.

O vento.

O silêncio.

A espera.

A emoção que não estava prevista.

Aquela manhã que começou como tantas outras e, por qualquer razão, nos fez parar.

É possível criar uma imagem de uma paisagem que nunca existiu.

Mas não é possível inventar retrospectivamente a experiência de termos estado diante daquela paisagem real.

E talvez esse seja um dos lugares onde a fotografia encontrará a sua resistência.

Não na capacidade de produzir imagens mais extraordinárias.

Mas na capacidade de preservar experiências verdadeiras.

O paradoxo

Volto, então, à pergunta inicial.

Porque fotografamos?

Talvez a resposta não seja necessariamente porque encontramos algo extraordinário.

Talvez fotografemos porque, por um instante, estivemos verdadeiramente atentos.

Não quero dizer com isto que devamos abandonar a procura da grande fotografia.

Continuarei a procurar a luz.

Continuarei a esperar pela neblina.

Continuarei a emocionar-me diante do mar, das montanhas, das árvores, das paisagens que me surpreendem.

O extraordinário também faz parte da nossa experiência.

Mas talvez seja importante não permitir que ele se transforme numa obrigação.

Porque, se acreditarmos que só o extraordinário merece ser fotografado, estaremos a condenar ao silêncio a maior parte da nossa vida.

E é precisamente aí que vejo o paradoxo.

Quanto mais procuramos fotografias extraordinárias, maior pode ser o risco de deixarmos de ver o mundo normal.

Mas é nesse mundo normal que a nossa existência acontece.

É nele que caminhamos.

É nele que envelhecemos.

É nele que amamos.

É nele que esperamos.

É nele que passamos a maior parte dos nossos dias.

Talvez a fotografia não tenha como missão tornar o mundo mais extraordinário.

Talvez tenha uma missão mais difícil:

ensinar-nos a ver aquilo que já não vemos.

Uma estrada que conhecemos.

Uma árvore que sempre esteve ali.

Uma praia num dia aparentemente igual a todos os outros.

A luz de uma manhã vulgar.

Uma paisagem que não pede para ser fotografada.

E, de repente, qualquer coisa acontece.

Paramos.

O mundo deixa de ser familiar.

Levantamos a câmara.

E fotografamos.

Nesse instante, a fotografia extraordinária pode finalmente acontecer.

Não porque o mundo tenha sido extraordinário.

Mas porque o nosso olhar deixou de ser indiferente.

Talvez seja essa a verdadeira fotografia extraordinária.

Não a que nos mostra um mundo excepcional.

Mas a que nos devolve, por alguns segundos, a capacidade de nos maravilharmos com o mundo que sempre esteve diante de nós.